Do Sermão de Ísis a Hórus — Excerto XXVII dos Excertos Herméticos de Estobeu

Do Sermão de Ísis a Hórus — Texto atribuído a Hermes Trismegisto e preservado por João Estobeu em sua Antologia, compilada no século V d.C. A obra reúne trechos de textos filosóficos da Antiguidade, entre eles tratados herméticos hoje parcial ou totalmente perdidos. Publicado como Excerto XXVII por G. R. S. Mead no terceiro volume de Thrice-Greatest Hermes (1906). Tradução de Alessandra Seitz a partir dessa versão inglesa.

Introdução

Este texto pertence ao corpus conhecido como Hermetica — escritos filosófico-religiosos gregos atribuídos a Hermes Trismegisto, combinação sincrética entre o deus grego Hermes e o deus egípcio Thot, provavelmente compostos entre os séculos I e III d.C. no Egito greco-romano. Esse corpus reúne o Corpus Hermeticum, o Asclépio, as Definições Herméticas armênias, os textos herméticos de Nag Hammadi, os fragmentos de Oxford e Viena e os Excertos Estobeanos. O presente excerto integra este último grupo. Preservado por Joannes Estobeu em sua vasta Antologia de literatura grega (século V d.C., Macedônia), chega até nós sob o título “Of Hermes: A Sermon of Isis to Horus” (Estobeu, Physica, xli. 68-69; ed. Gaisford pp. 476-481; Meineke i. 342-352; Wachsmuth i. 458-472; cf. Ménard, Livre III, nº iii, pp. 209-221).

A versão inglesa aqui traduzida para o português é a de George Robert Stow Mead (1863-1933), teósofo, escritor e tradutor britânico, publicada em Thrice-Greatest Hermes: Studies in Hellenistic Theosophy and Gnosis, 3 vols. (Londres: Theosophical Publishing Society, 1906). Nessa compilação, o presente texto é o Excerto XXVII completo — o último da série de Excertos por Estobeu que abre o Volume III, sob o título “Excerpt XXVII: From the Sermon of Isis to Horus”. A presente tradução portuguesa toma como fonte direta esse texto inglês de Mead.

Na compilação de Mead, este Excerto XXVII dá sequência aos dois excertos anteriores, intitulados por ele “The Virgin of the World” — e trata especificamente da encarnação e reencarnação das almas: as zonas atmosféricas onde habitam entre corpos, os dois ministros da Providência responsáveis por sua guarda e condução (o Guardião e o Condutor), as duas energias que auxiliam a Natureza nesse processo (a Memória e a Experiência), e como a mistura dos quatro elementos determina o caráter e a saúde de cada corpo.

Boa leitura.

EXCERTO XXVII

DO SERMÃO DE ÍSIS A HÓRUS

(Patrizzi, p. 34b, une este trecho ao anterior sem interrupção. Texto: Estobeu, Physica, xli. 68-69, sob o título “Of Hermes: A Sermon of Isis to Horus”; G. pp. 476-481; M. i. 342-352; W. i. 458-472. Ménard: Livro III, nº iii de “Fragmentos”, etc., como acima, pp. 209-221.)

1. De modo admirável — (disse Hórus) — me explicaste, poderosíssima mãe Ísis, os pormenores da prodigiosa criação da alma por Deus, e permaneço maravilhado; mas ainda não me disseste para onde vão as almas quando libertadas do corpo. Eu então te agradeceria por eu ser iniciado pela palavra que sai da boca [1] nesta visão (theōría) [2] da alma, ó única mãe, imortal!

2. E Ísis disse:

Escuta, meu filho; de suma importância é esta pesquisa. Aquilo que se mantém unido, possui também um lugar que não desaparece. Pois é isto que meu sermão exporá.

Ó admirável, poderoso filho do poderoso pai Osíris, [as almas] quando saem dos corpos, não se dissolvem confusamente e às pressas no ar, nem se dispersam no resto do Sopro (Pneuma) ilimitado, de modo que não possam mais como as mesmas [almas] tornar a regressar aos corpos; nem tampouco é possível, de novo, fazê-las retornar àquele lugar de onde vieram no início — não mais do que a água tirada do fundo de uma talha pode ser despejada [3] de volta [novamente] no mesmíssimo lugar de onde foi tirada; nem a mesma água quando tirada ocupa um lugar que lhe seja próprio, mas se mistura com toda a massa das águas. Não é assim [com as almas], ó Hórus de nobre espírito!

3. Ora como me encontro como que iniciada na natureza que transcende a morte, e como meus pés já atravessaram a Planície da Verdade [4], explicar-te-ei em pormenor como isso se dá; e começarei dizendo que a água é um corpo destituído de razão condensado a partir de muitas coisas compostas numa massa fluida, ao passo que a alma é coisa de natureza individual, meu filho, e de espécie régia, obra das próprias mãos e do próprio Intelecto (Nous) de Deus, e por si mesma conduzida por si mesma até o Intelecto.

Aquilo que então procede de uma coisa, e não de outra, não pode misturar-se com coisa diferente; por isso é necessário que a união da alma com o corpo seja uma concórdia forjada pela necessidade de Deus.

Mas que elas não sejam enviadas de volta [todas] confusa e aleatória e casualmente a um só e mesmo lugar, mas cada qual à sua própria região, isso fica claro pelo que a alma padece enquanto ainda está no corpo e no plasma, quando foi condensada contra sua própria natureza.

Presta agora boa atenção à parábola que se segue, ó Hórus bem-amado!

4. Suponhamos que numa só e mesma jaula estejam encerrados tanto homens quanto águias, pombas e cisnes, andorinhas, falcões e pardais, moscas e serpentes, leões, leopardos, lobos e cães, e lebres, e bois e ovelhas, e alguns animais anfíbios, como focas e outros, tartarugas e nossos próprios crocodilos; suponhamos, então, meu filho, que num só e mesmo momento todos sejam soltos.

Todos se voltarão instintivamente — o homem para seus pontos de encontro e seus lares; a águia para o éter, no qual é próprio de sua natureza passar a vida; as pombas para o ar vizinho; os falcões para aquele acima das pombas; as andorinhas para onde habitam os homens; os pardais em torno das árvores frutíferas; os cisnes para onde possam cantar; as moscas pela terra, mas somente tão longe dela quanto possam ficar sem perder o cheiro do homem (pois a mosca, meu filho, é particularmente afeiçoada ao homem e tende para a terra); os leões e os leopardos para as colinas; os lobos para os lugares desertos; os cães atrás das pegadas dos homens; os bois para os estábulos e campos; as ovelhas para os pastos; as serpentes para os recessos da terra; as focas e as tartarugas, com [toda] a sua espécie, para as profundezas e correntes, de modo que não fiquem privadas da terra seca nem afastadas de sua água congênere — cada qual retornando ao seu lugar próprio por meio de seus meios internos de julgamento.

Assim, toda alma, seja em forma humana, seja encarnada de outro modo na terra, sabe aonde deve ir — a menos que algum tolo [5] venha dizer, meu filho, que é possível a um touro viver na água ou a uma tartaruga viver no ar!

5. E se isso é o caso quando elas estão mergulhadas em carne e sangue — que nada fazem contrário ao que lhes é designado, ainda que estejam sendo punidas (pois ser colocadas no corpo é uma punição para elas) — quanto mais não se dará quando possuem sua liberdade própria [e são libertas] da punição e do mergulho no corpo?

Ora a santíssima ordenação das almas é assim. Volta teu olhar para cima, filho de nobilíssima natureza, sobre suas ordens. O espaço da altura do céu até a lua se consagra aos deuses e aos astros e ao resto da Providência (Pronoia); o espaço, meu filho, da lua até nós é morada das almas.

Este ar tão vasto, porém, tem nele um cinturão ao qual costumamos dar o nome de vento, uma extensão definida na qual é mantido em movimento para refrescar as coisas da terra, e do qual falarei mais adiante.

Contudo de modo algum por seu próprio movimento ele se torna obstáculo às almas; pois embora permaneça em movimento, as almas podem lançar-se para cima ou para baixo, conforme o caso, livres de todo impedimento e obstáculo [6]. Pois atravessam sem mistura nem aderência como a água flui através do óleo.

6. Ora deste intervalo, Hórus, meu filho, há quatro divisões principais e sessenta espaços especiais.

Destas divisões a primeira subindo desde a terra é de quatro espaços, de modo que a terra em certas de suas alturas e picos montanhosos se estende e chega até ali, mas além destes não pode por sua natureza ir em altura.

A segunda após esta é de oito espaços, nos quais se dão os movimentos dos ventos.

Presta atenção, ó filho, pois estás ouvindo mistérios que não devem ser revelados — da terra e do céu e de todo o ar sagrado que se situa entre eles, no qual há o movimento do vento e o voo das aves. Pois acima disto o ar não tem movimento algum e não sustenta vida alguma.

Este ar em movimento além disso tem por sua própria natureza esta autoridade — a de poder circular tanto em seus próprios espaços quanto nos quatro da terra com todas as vidas que contém, ao passo que a terra não pode ascender ao seu reino.

A terceira consiste em dezesseis espaços preenchidos de ar sutil e puro.

A quarta consiste em trinta e dois espaços, nos quais há o ar mais sutil e mais fino; é por meio deste ar que ele se fecha diante dos céus acima que são por natureza ígneos.

7. Esta ordenação é para cima e para baixo em linha reta e não tem sobreposição; de modo que há quatro divisões principais, doze intervalos e sessenta espaços.

E nestes sessenta espaços habitam as almas, cada uma segundo sua natureza, pois embora sejam de uma só e mesma substância, não são da mesma dignidade. Pois na medida em que um espaço é mais alto que outro a partir da terra, nessa mesma medida as almas que neles habitam, meu filho, superam em eminência umas às outras [7].

Que almas, porém, vão para cada um deles, eu tornarei a dizer-te, Hórus, de grande renome, tomando sua ordem de cima para baixo até a terra.

DA INSUFLAÇÃO E DA TRANSMIGRAÇÃO DA ALMA [8]

8. O ar entre a terra e os céus, Hórus, é dividido em espaços por medida e por harmonia.

Estes espaços foram chamados por alguns de nossos antepassados de zonas, por outros de firmamentos, por outros de esferas [8a].

E neles habitam tanto as almas que foram libertadas de seus corpos quanto as que ainda nunca foram encerradas em corpo.

E cada uma delas, meu filho, tem exatamente o lugar que merece; de modo que as divinas e régias habitam no espaço mais alto de todos, as de menor honra e as demais decadentes habitam no espaço mais baixo de todos, enquanto as almas medianas habitam no espaço médio.

Assim, aquelas almas que são enviadas para baixo a fim de governar, são enviadas, Hórus, das zonas superiores; e quando são libertadas novamente voltam para as mesmas zonas ou ainda mais elevadas, a menos que tenham agido contrariamente à dignidade de sua própria natureza e ao decreto da Lei de Deus.

Tais almas a Providência acima, segundo a medida de seus pecados, bane para espaços inferiores; assim como com aquelas que são inferiores em dignidade e poder, ela as conduz para cima dos reinos inferiores para os mais vastos e mais elevados.

9. Pois acima de todas elas, há dois ministros da Providência universal, dos quais um é o Guardião das almas, o outro seu Condutor. O Guardião vigia as almas quando fora do corpo, enquanto o Condutor é quem as despacha e distribui para dentro de seus corpos. Aquele as retém, enquanto este as envia segundo a Vontade de Deus.

Por esta razão (logos), então, meu filho, a natureza na terra conforme a mudança dos feitos lá em cima modela os vasos e talha as tendas nas quais as almas são lançadas [9]. Duas energias, a experiência e a memória, a auxiliam.

E esta é a tarefa da memória, zelar para que a natureza guarde o tipo de cada coisa enviada para baixo desde sua origem e mantenha sua mistura tal como é lá em cima; enquanto o trabalho da experiência é zelar para que, conformemente a cada uma das almas descendentes, ela tenha sua incorporação, e para que os plasmas sejam tornados eficazes — de modo que para as almas velozes os corpos sejam também velozes, para as lentas lentos, para as ativas ativos, para as indolentes indolentes, para as poderosas poderosos, e para as astutas astutos, e em suma para cada uma delas conforme lhe convém.

10. Pois não sem intenção ela revestiu de plumas as coisas aladas; e adornou com sentidos mais do que ordinários e mais exatos aquelas que têm razão; e tornou fortes alguns dos quadrúpedes com chifres, outros com dentes, outros com garras e cascos; enquanto às coisas rastejantes tornou flexíveis, com corpos revestidos de escamas que se movem facilmente, e que podem deslizar com facilidade.

E para que a natureza aquosa de seu corpo não permanecesse inteiramente fraca, ela dotou de poder as presas afiadas de algumas delas; de modo que por causa do medo da morte que causam sejam mais fortes que as demais.

Às coisas natantes sendo elas temerosas, ela deu para habitar um elemento em que a luz não pode exercer nem um nem outro de seus poderes, pois o fogo na água não dá nem luz nem calor. Mas cada uma delas, nadando na água revestida de escamas ou espinhos, foge daquilo que a assusta para onde quiser, usando a água como meio de esconder-se da vista.

11. Pois as almas são encerradas em cada classe destes corpos segundo sua semelhança com eles. Aquelas que têm poder de julgamento descem aos homens; e as que o carecem aos quadrúpedes, cuja única lei é a força; as astutas descem aos répteis, pois nenhum deles ataca o homem de frente, mas o espreitam e o derrubam; e às coisas natantes descem as temerosas ou aquelas que não são dignas de gozar dos outros elementos. Em cada classe, porém, encontram-se algumas que já não usam mais sua natureza própria.

Como assim afinal, minha mãe? Disse Hórus.

E Ísis respondeu:

Um homem, por exemplo, meu filho, ultrapassa seu poder de julgamento; um quadrúpede evita o uso da força; e os répteis perdem sua astúcia; e as aves seu medo dos homens. Isto então quanto à ordenação das almas lá em cima e sua descida, e quanto à formação de seus corpos.

12. Em cada classe e espécie das acima mencionadas, meu filho, podem encontrar-se algumas almas régias; outras também descem com naturezas diversas, algumas ígneas, outras frias, algumas arrogantes, outras mansas, algumas hábeis, outras inábeis, algumas ociosas, outras laboriosas, algumas de um jeito, outras de outro. E isto resulta da disposição das regiões de onde as almas saltam para sua incorporação.

Pois da Zona Régia saltam para o nascimento, sendo governadas pela alma de natureza semelhante [11]; pois há muitas soberanias. Algumas são de almas, e algumas de corpos, e algumas de artes, e algumas de ciências, e algumas de nós mesmos.

Como assim, minha mãe, “de nós mesmos”?

Por exemplo, meu filho, é teu pai Osíris quem governa as almas dos que nasceram depois de nós até este momento [12]; ao passo que o príncipe de cada raça governa seus corpos; do conselho, o rei, pai e guia de todos, é Hermes Trismegisto; da medicina Asclépio, filho de Hefesto; do poder e da força novamente Osíris, e, depois dele, tu mesmo, meu filho; da filosofia Arnebescênis; da poesia novamente Asclépio-Imutes.

13. Pois em geral, meu filho, hás de descobrir, se investigares, que há muitos governando muitas coisas e muitos exercendo domínio sobre muitos. E aquele que governa todos eles, meu filho, provém do espaço mais alto; enquanto aquele que governa alguma parte deles, tem o posto daquele reino particular de onde provém.

Os que vêm da Zona Régia, têm um papel mais dominante a desempenhar; os da Zona do Fogo [13] tornam-se trabalhadores e cuidadores do fogo; os da Zona Aquosa vivem sua vida nas águas; os da Zona da Ciência e da Arte se ocupam de artes e ciências; os da Zona da Inatividade vivem suas vidas inativa e descuidadamente.

Pois as fontes de todas as coisas realizadas na terra por palavra ou por obra, estão lá em cima, e de lá se nos dispensam suas essências por peso e medida; e não há nada que não tenha descido de cima, e que não haja de voltar a descer novamente.

14. O que queres dizer com isto, minha mãe? Diga-me!

E Ísis mais uma vez respondeu: A Natureza santíssima estabeleceu nas criaturas vivas o sinal claro deste retorno. Pois este sopro que respiramos de cima do ar, nós o expelimos de novo para cima, para tomá-lo de volta outra vez.

E temos em nós órgãos, meu filho, para realizar este trabalho, e quando fecham as bocas pelas quais o sopro é recebido, então já não somos como agora somos, mas partimos.

Além disso, filho de grande renome, há algumas outras coisas que acrescentamos a nós fora da mistura pesada do corpo.

15. O que é, então (disse Hórus), esta mistura, mãe?

É uma união e uma mescla dos quatro elementos; e desta mescla e união surge um certo vapor [14], que é envolvido pela alma, mas circula dentro do corpo, partilhando com cada um, com o corpo e com a alma, sua natureza. E assim se efetuam as diferenças das mudanças tanto na alma quanto no corpo.

Pois se houver na composição corpórea mais fogo, então a alma, que por natureza é quente, tomando para si outra coisa que é quente, e assim tornando-se mais ígnea, torna a vida mais enérgica e mais apaixonada, e o corpo rápido e ativo.

Se houver mais ar, então a vida se torna leve e elástica e instável tanto na alma quanto no corpo.

E se há mais água, então a criatura também se torna de alma flexível e disposição fácil, e pronta para o abraço, e capaz de facilmente se encontrar e unir-se com outras, por meio do poder de união e comunhão da água com o resto das coisas; pois ela encontra lugar em tudo, e quando abundante, dissolve aquilo que envolve, ao passo que se há pouca água, ela se afunda e se torna aquilo com que se mistura. Quanto a seus corpos, pela umidade e pela esponjosidade eles não são feitos compactos, mas por um leve ataque de doença se dissolvem, e caem pouco a pouco do vínculo que os mantinha unidos entre si.

E se o elemento terroso está em excesso, a alma da criatura é embotada, pois não tem a textura de seu corpo frouxamente entrelaçada, nem espaço para saltar através dela, sendo densos os órgãos da sensação; mas permanece em si mesma, presa pelo peso e pela densidade. Quanto ao seu corpo, é firme, mas pesado e inerte, e só se move por escolha mediante exercício de força.

Mas se há um estado equilibrado de todos os elementos, então o animal é feito quente para a ação, leve para o movimento, bem misturado para o contato, e excelente para manter as coisas unidas [15].

16. Assim aquelas almas que têm em si mais fogo e ar, essas são feitas aves, e têm seu lugar acima junto àqueles elementos de onde vieram.

Já as que têm mais fogo, menos ar, e terra e água em igual medida, essas são feitas homens, e para a criatura o excesso de calor se converte em sagacidade; pois o Intelecto em nós é coisa ardente que não sabe como queimar, mas tem inteligência para penetrar todas as coisas.

E as que têm em si mais água e mais terra, mas moderado ar e pouco fogo, essas se convertem em quadrúpedes, e as que têm mais calor são mais fortes que as demais. As que têm terra e água em igual medida, são feitas répteis. Estas por sua falta de fogo carecem de coragem e retidão; e por terem água em si são frias; e por terem terra são pesadas e torpes; contudo por terem ar, podem mover-se com facilidade se assim escolherem.

As que têm em si mais úmido, e menos seco, essas se fazem peixes. Estas por sua falta de calor e ar são temerosas e procuram esconder-se, e pelo excesso de elementos úmidos e terrosos, encontram sua morada, por afinidade, na terra fluida e na água.

17. É segundo a parte que têm em cada elemento e segundo a extensão dessa parte, que os corpos alcançam pleno crescimento no homem; segundo a pequenez de sua parte, os demais animais foram proporcionados — conforme a energia que há em cada elemento [16].

Além disso, ó meu bem-amado, digo que, quando, a partir deste estado de coisas, a mescla baseada na primeira combinação dos elementos, e o vapor resultante dela, preservam de tal modo sua peculiaridade própria, que nem a parte quente assume outro calor, nem a aérea assume outro ar, nem a aquosa outra umidade, nem tampouco a terrosa assume outra densidade, então o animal permanece saudável.

18. Mas se não permanecem, meu filho, nas proporções que tinham desde o princípio [17], sendo antes demasiadamente aumentadas — (não me refiro à energia segundo sua extensão ou à mudança de sexo e corpo trazida pelo crescimento, mas à mescla, como já dissemos, dos elementos componentes, de modo que o quente, por exemplo, é aumentado demais ou diminuído demais, e assim para todo o resto) — então o animal adoecerá.

19. E se este aumento se der em ambos os elementos de calor e de ar, companheiros de tenda da alma, então a criatura cai em sonhos simbólicos e em êxtases; pois se deu uma concentração dos elementos pela qual os corpos se dissolvem. Pois é o próprio elemento terroso que é a condensação do corpo; o elemento aquoso nele também é uma fluidez que o torna denso. Ao passo que o elemento aéreo é o que em nós tem o poder do movimento, e o fogo é o que dá fim a todos eles.

20. Assim como é o vapor que surge da primeira conjunção e comistura dos elementos, como se fosse um acender ou uma exalação — seja o que for, ele se mistura com a alma e a atrai para si, de modo que ela partilha de sua natureza boa ou má. E se a alma permanece em sua relação original e vida comum com ele, mantém seu posto.

Mas quando se acrescenta de fora alguma parte maior do que a inicialmente estabelecida para ela — seja à mistura inteira, seja às suas partes, seja a uma parte dela — então a mudança resultante efetuada no vapor provoca uma mudança seja na disposição da alma, seja na do corpo.

O fogo e o ar, tendendo para cima, apressam-se para cima para a alma, que habita nas mesmas regiões que eles; os elementos aquoso e terroso, tendendo para baixo, afundam-se sobre o corpo, que possui essa mesma sede.

Notas

[1] mýstēs — o mýstēs, de modo geral, era iniciado de viva voz; o epóptēs, por visão ou vista.

[2] theōría. [N.T. (Alessandra Seitz): no grego, “visão” ou “contemplação” (raiz de “teoria”); é a palavra por trás de “vision” no inglês de Mead.]

[3] Lendo epikhéin em vez de epékhein — leitura de Mead. [N.T. (Alessandra Seitz): a primeira forma significa “verter”, “despejar”; a segunda, “reter”, “conter”. Os manuscritos trazem a segunda, mas Mead emenda o texto grego para a primeira, o que sustenta a tradução “verter [de volta]” na frase sobre a água tirada do fundo do jarro.]

[4] A “Planície da Verdade” remete ao Campo da Verdade da tradição egípcia (afim aos Campos de Aaru), morada das almas justificadas — daí sua invocação aqui como credencial iniciática de Ísis.

[5] tis tôn typhōníōn — expressão interessante, pois mostra que Tífon era considerado o inimigo de Osíris (o Logos, ou a Razão).

[6] Cf. o início do Apocalipse de Tespésio (Arideu), em Plutarco, De Sera Numinis Vindicta, xxii.

[7] Para uma consideração desta ordenação, ver p. 168 e segs., acima (no volume original).

[8] Este título parece ter sido inserido por Estobeu (Physica, xli. 64) ou por algum copista; não parece haver interrupção no texto.

[8a] Nota do tradutor: optou-se por “esferas” em vez da tradução literal “camadas”, por haver referência histórica verificável para esse sentido — a noção aristotélica de sphaîra para as camadas do ar/éter (Meteorologica) — que se ajusta melhor ao que a própria frase descreve: espaços “chamados por nossos antepassados.”

[9] O texto está extremamente corrompido, e, em seu estado atual, é praticamente intraduzível.

[10] O texto está, mais uma vez, muito corrompido.

[11] O texto está aqui muito corrompido, e a leitura das últimas palavras das duas frases seguintes é muito duvidosa.

[12] Isto é, presumivelmente, desde o tempo em que Osíris e Ísis viveram na terra entre os homens.

[13] O texto está extremamente deficiente.

[14] Cf. §§ 17 e 20.

[15] O texto é falho, a linguagem artificial, a analogia forçada, e o sentido, por conseguinte, obscuro. Meineke lê: gennaîon dè eis thêxin. Note-se que a obscuridade recai sobre o último predicado da frase — “excelente para manter as coisas unidas” (gennaîon, que Mead verte por “excellent”, é justamente a palavra que Meineke propõe reler em associação com thêxis, “afiar/aguçar”, sentido bem diferente de “coesão”) — e não sobre “quente para a ação”, que está solidamente ancorado no restante do parágrafo (fogo = quente, cf. §15-16).

[16] O texto está completamente corrompido e ainda não foi sequer plausivelmente emendado.

[17] “Desde o princípio” remete à “primeira combinação dos elementos” mencionada no parágrafo anterior — isto é, à mistura elementar estabelecida na formação de cada corpo individual (cf. §§13-16), e não à criação primordial do cosmos, tampouco à origem da alma em si, tratada em separado nos §§1-3.

Referência

Conforme a ABNT NBR 6023:

HERMES TRISMEGISTO. Do Sermão de Ísis a Hórus (Excerto XXVII). In: MEAD, G. R. S. Thrice-Greatest Hermes: Studies in Hellenistic Theosophy and Gnosis. v. 3. Londres: Theosophical Publishing Society, 1906. Tradução de Alessandra Seitz.

Citação no corpo do texto (ABNT NBR 10520): (HERMES TRISMEGISTO, [ano], tradução de Alessandra Seitz).

Crédito da imagem: The Goddess Isis (1909). Armand Point (French, 1861–1932). Disponível em: Artvee

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