O Divino Poimandres — Primeiro livro (1. His First Book) da obra O Divino Poimandres, atribuída a Hermes Trismegisto. Versão em português de Alessandra Seitz, realizada a partir da tradução inglesa publicada pelo Dr. John Everard em 1650.
I. Seu Primeiro Livro
1. Eu, ó meu filho, escrevo este Primeiro Livro, tanto para a humanidade, quanto pela piedade para com Deus.
2. Pois não pode haver Religião mais verdadeira ou justa do que conhecer as coisas que são; e dar graças por todas as coisas Àquele que as fez, o que não cessarei de fazer continuamente.
3. Que deve, então, fazer um homem, ó Pai, para conduzir bem a sua vida; visto que nada aqui é verdadeiro?
4. Sê piedoso e religioso, ó meu filho; pois aquele que assim procede é o melhor e o mais elevado Filósofo, e sem a Filosofia é impossível alcançar a altura e a exatidão da Piedade e da Religião.
5. Mas aquele que aprender e estudar as coisas que são, e como são ordenadas e governadas, e por quem, e por qual causa, ou com que fim, dará graças ao Artífice, como a um bom Pai, uma excelente Ama, e um fiel Mordomo, e aquele que dá graças será piedoso ou religioso, e aquele que é religioso conhecerá tanto onde está a verdade, quanto o que ela é, e, aprendendo isso, será ainda mais e mais religioso.
6. Pois jamais, ó meu filho, poderá aquela alma que, enquanto está no corpo, se ilumina e se eleva para conhecer e compreender aquilo que é bom e verdadeiro, retroceder de volta para o contrário. Pois ela é infinitamente apaixonada por isso, e esquece todos os males; e, quando tiver aprendido e conhecido seu Pai e Progenitor, não poderá mais apostatar ou se separar desse bem.
7. E que seja este, ó filho, o fim da Religião e da Piedade; ao qual, uma vez chegado, viverás bem e morrerás abençoadamente, enquanto tua alma não ignorar para onde deve retornar e voar de volta.
8. Pois somente este, ó filho, é o caminho para a Verdade, pelo qual nossos Progenitores percorreram; e por meio do qual, fazendo sua jornada, eles finalmente alcançaram o bem. É um caminho venerável e simples, mas árduo e difícil para a alma, pois que está no corpo.
9. Pois primeiro deve guerrear contra si mesma, e após muita luta e dissensão, uma das forças deve prevalecer; pois a contenda é de uma contra duas, enquanto ela tenta alçar voo, e elas se esforçam por aprisioná-la.
10. Mas a vitória de ambos não é igual; pois um apressa-se para aquilo que é Bom, enquanto o outro é vizinho das coisas que são Más; e aquilo que é Bom deseja ser libertado, mas as coisas que são Más amam o Cativeiro e a Escravidão.
11. E, se as duas partes forem vencidas, tornam-se tranquilas e se contentam em aceitá-la como sua Governante; mas, se a uma for vencida pelas duas, por elas será conduzida e levada para ser punida por seu ser e por sua continuação neste lugar
12. Este é, ó filho, o Guia no caminho que conduz para lá; pois primeiro deves abandonar o corpo antes do teu fim, e conquistar a vitória nesta vida de contendas e lutas, e quando tiveres vencido, retornar.
13. Mas agora, ó meu Filho, discorrerei, por tópicos, sobre as coisas que são. Entende o que digo, e lembra-te do que ouves.
14. Todas as coisas que São se movem, só o que não É é imóvel.
15. Todo corpo é mutável.
16. Nem todo corpo é dissolúvel.
17. Alguns corpos são dissolúveis.
18. Nem todo ser vivo é mortal.
19. Nem todo ser vivo é imortal.
20. Aquilo que pode ser dissolvido também é corruptível.¹
21. Aquilo que permanece para sempre é imutável.
22. Aquilo que é imutável é eterno.
23. Aquilo que está sempre sendo feito é sempre corrompido.
24. Aquilo que é feito uma única vez nunca é corrompido, nem se torna nenhuma outra coisa.
25. Primeiro, Deus; segundo, o Mundo; terceiro, o Homem.
26. O Mundo, para o Homem; o Homem, para Deus.
27. Da alma: aquela parte que é sensitiva é mortal, mas aquela parte que é racional é imortal.
28. Toda Essência é imortal.
29. Toda Essência é imutável.
30. Tudo o que é, é duplo.
31. Nenhuma das coisas que existem permanece imóvel.
32. Nem todas as coisas são movidas por uma alma, mas tudo o que É, é movido por uma alma.
33. Tudo o que sofre é sensível; tudo o que é sensível, sofre.
34. Tudo o que é triste também se alegra; e é uma criatura viva mortal.
35. Nem tudo o que se alegra é também triste, mas é um ser vivo eterno.
36. Nem todo corpo é doente; todo corpo doente é dissolúvel.
37. A Mente em Deus.
38. Raciocínio (ou debate, ou discurso) no Homem.
39. Razão na mente.
40. A Mente é vazia de sofrimento.
41. Nada há no corpo verdadeiro.
42. Tudo o que é incorpóreo é vazio de Mentira.
43. Tudo o que é feito é corruptível.
44. Nada bom na Terra; nada mau no Céu.
45. Deus é bom; Homem é mau.
46. Bem é voluntário, ou de seu próprio acordo.
47. Mal é involuntário, ou contra a sua vontade.
48. Os deuses escolhem as coisas boas, como coisas boas.
49. Tempo é uma coisa divina.
50. Lei é humana.
51. Malícia é o alimento do Mundo.
52. Tempo é a Corrupção[1] do Homem.
53. Seja o que for que está no Céu é inalterável.
54. Tudo o que está na Terra é alterável.
55. Nada no Céu é servo; nada na Terra é livre.
56. Nada desconhecido no Céu; nada conhecido na Terra.
57. As coisas da Terra não se comunicam com as do Céu.
58. Todas as coisas no Céu são inculpáveis; todas as coisas na Terra estão sujeitas a repreensão.
59. Aquilo que é imortal não é mortal; aquilo que é mortal não é imortal.
60. O que é semeado nem sempre foi gerado; mas o que é gerado é sempre semeado.
61. De um Corpo dissolúvel, há dois períodos: um da semeadura à geração, outro da geração para a morte.
62. De um Corpo eterno, o tempo é apenas a partir da Geração.
63. Corpos dissolúveis aumentam e diminuem.
64. Matéria dissolúvel é alterada em seus contrários, a saber, Corrupção e Geração; mas a matéria Eterna, em si mesma e no que lhe é semelhante.
65. A Geração do Homem é Corrupção; a Corrupção do Homem é o início da Geração.
66. Aquilo que gera ou procria outro é em si mesmo gerado ou procriado por outro.
67. Das coisas que são, algumas estão em Corpos, outras em suas Ideias.
68. Seja o que for que pertença à operação ou obra está em um corpo.
69. O que é imortal não participa do que é mortal.
70. Aquilo que é mortal não entra em um Corpo imortal; mas aquilo que é imortal entra naquilo que é mortal.
71. Operações, ou obras, não são elevadas para cima, mas descem para baixo.
72. As coisas sobre a Terra em nada beneficiam aquelas que estão no Céu; mas todas as coisas no Céu beneficiam e favorecem todas as coisas sobre a Terra.
73. O Céu é capaz, e um receptáculo apropriado para Corpos eternos; a Terra, para Corpos corruptíveis.
74. A Terra é bestial; o Céu é razoável ou racional.
75. Aquelas coisas que estão no Céu são sujeitas a ele, ou colocadas sob ele; mas as coisas sobre a Terra são colocadas sobre ele.
76. Céu é o primeiro elemento.
77. Providência é a ordem divina.
78. Necessidade é a Ministra, ou Serva, da Providência.
79. Fortuna é o curso, ou efeito, daquilo que é sem ordem: o ídolo da operação, uma fantasia mentirosa ou opinião.
80. O que é Deus? O imutável ou inalterável Bem.
81. O que é homem? Um imutável mal.
82. Se te lembrares perfeitamente destes tópicos, não poderás esquecer aquelas coisas que, em mais palavras, amplamente te expus; pois estes são o conteúdo ou o resumo delas.
83. Evita toda conversação com a multidão ou o povo comum; pois não quero que sejas sujeito à inveja, muito menos ser ridículo para os muitos.
84. Pois o semelhante sempre atrai a si o semelhante, mas o dessemelhante nunca concorda com o dessemelhante. Discursos como estes têm muito poucos Ouvintes, e talvez muito poucos virão a tê-los, mas possuem algo de peculiar em si mesmos.
85. Com efeito, aguçam e afiam os homens maus para sua malícia; portanto, é necessário evitar a multidão e tomar cuidado com eles, como aqueles que não entendem a virtude e o poder das coisas que são ditas.
86. Como queres dizer isso, ó Pai?
87. Isto, ó Filho: toda a natureza e composição daqueles seres vivos chamados homens é muito propensa à malícia, e lhe é muito familiar, e, por assim dizer, dela é nutrida, e, portanto, nela se deleita. Agora, se esta criatura vier a aprender ou conhecer que o mundo foi um dia feito, e que todas as coisas são feitas segundo a Providência ou Necessidade, Destino ou Fatalidade, imperando sobre tudo, não será muito pior do que é, desprezando o todo porque foi feito? E se puder atribuir a causa do Mal à Fatalidade ou Destino, nunca se absterá de nenhuma obra maligna.
88. Portanto, devemos olhar cautelosamente para tal tipo de pessoas, para que, estando na ignorância, sejam menos malignas pelo medo daquilo que é oculto e mantido em segredo.
Fim do Primeiro Livro.
Referência
HERMES TRISMEGISTO. O Primeiro Livro de O Divino Poimandres (The Divine Pymander). Tradução inglesa de John Everard. Londres: George Redway, 1884. Tradução de Alessandra Seitz.
Crédito da imagem: Thoth Trismégiste, le premier Hermès, Hermès Trismégiste (1823–1825). Léon-Jean-Joseph Dubois (French, 1780–1846). Disponível em: Artvee.

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