(The Esoteric (O Esotérico), 1887.)
HÁ uma lei de periodicidade que prevalece por toda a natureza, os ciclos do tempo guardam uma relação muito importante com a vida e os assuntos humanos. A evolução da raça avança em conformidade com a lei universal, e é comparável às revoluções, estações e ciclos que governam nosso sistema solar. Há um hemisfério de verdade no ditado “que a história se repete, que aquilo que foi tornará a ser, que nada há de novo sob o sol;” e contudo, embora o dia e a noite se repitam a cada vinte e quatro horas, tão semelhantes entre si, nunca são inteiramente os mesmos para a experiência mortal. A incessante sucessão das estações vem e vai, e embora elas não nos deem nesta primavera as mesmas folhas e flores que tivemos há um ano, ainda assim as forças periódicas da natureza operam com semelhante regularidade, de modo que podemos, com certeza, contar com flores e verdor aproximadamente na mesma época; que as “chuvas de abril” farão surgir as flores de maio; que junho dará sua perene abundância de rosas; que o verão amadurecerá os grãos, e o outono produzirá sua colheita.
Até certo ponto esta lei da periodicidade é tão evidente por si mesma que se tornou axiomática, contudo relativamente poucos percebem que ela não passa do A B C de uma lei cíclica que oferece um campo interessante e quase ilimitado de estudo proveitoso.
Devemos primeiro observar que as estações e os ciclos, assim como o dia e a noite, dependem dos movimentos dos corpos celestes, os quais Gênesis 1-14 declara existirem não apenas para luzeiros, mas “para sinais e para estações, para dias e para anos.” A Bíblia hebraica faz frequente referência às constelações e aos sinais dos céus, e corrobora as evidências que foram transmitidas por outras fontes, — de que em tempos muito antigos os céus eram considerados o grande mostrador de um relógio divino, e que os sóis e o sistema em movimento eram os ponteiros que marcavam, não meramente a passagem do tempo, mas os ciclos da evolução humana, o ir e vir das estações tanto pequenas quanto grandes. Assim o cântico (ou história) das estrelas repete-se nos Evangelhos, aos quais antecede, como uma revelação primordial de Deus ao homem.
Joseph A. Seiss, D.D., pastor da igreja da Santa Comunhão, Filadélfia, diz, “Que a extraordinária sabedoria astronômica incorporada na Grande Pirâmide de Gizé primeiro lhe causou a impressão de que esta antiga história das estrelas devia ter provindo de uma fonte divina e profética,” convicção que levou a extensas pesquisas, e culminou em seu interessante e inspirador livro, “The Gospel in the Stars.” Ele considera a Astronomia a alma das antigas religiões; mas durante eras, observa ele, “todo o campo foi entregue à astrologia supersticiosa, que maculou uma nobre ciência, — um domínio sagrado de Deus; e, quando considero o profundo e quase universal domínio que um tratamento espúrio e perverso deste campo exerceu por tanto tempo sobre a humanidade, sou ainda mais levado a suspeitar da existência de alguma coisa original, verdadeira e sagrada por trás dele. Não há no mundo sistema poderoso de credulidade que não tenha alguma grande verdade em sua raiz, e há razão para pensar que existe, afinal, alguma grande, original, divina ciência relacionada às estrelas.” Assim ele conclui que elas são um alfabeto divino, e que Gênesis é significativo quando Deus, depois de ter criado as estrelas, disse, “e sejam elas para sinais.” Assim algo importante está ligado a cada estrela e constelação. “Deus falou nas estrelas;” os antigos sabiam como ler aquele grande livro, e o alfabeto não se perdeu inteiramente; e de tempos em tempos apresentaremos aos nossos leitores algumas das antigas e aparentemente inspiradas lendas dos céus, juntamente com sua relação com o passado e o futuro da raça. Nosso propósito neste momento é principalmente transmitir uma ideia geral das leis cíclicas, e da periodicidade da vida e do progresso humanos.
A terra é uma função dos céus universais; o homem, em sentido exterior, é um produto da terra, mas relacionado por lei ao sistema solar, e através deste à ordem universal da existência. Os céus repetem-se na natureza do homem, consequentemente um conhecimento dos ciclos e períodos de nosso sistema solar lança importante luz sobre a ordem da lei e a evolução dos acontecimentos humanos.
As posições e combinações dos corpos celestes podem ser matematicamente determinadas por milhares de anos no passado e por milhares de anos no futuro. Sóis, estrelas, planetas e constelações são as letras e palavras de um alfabeto divino; tudo possui significado; toda mudança possui sua significação; mas temos estado tão absorvidos pelos tipos móveis de Gutenberg que deixamos de perceber o alfabeto móvel dos céus. As modernas “probabilidades” são apenas um primeiro passo visando à restauração dos antigos hábitos de observação. O primeiro livro das Geórgicas de Virgílio é abundante na aplicação prática deste alfabeto primordial dos céus, e pretendemos apresentar algumas de suas observações em um número futuro.
A lua é o primeiro e mais próximo corpo da terra, completando um ciclo simples a cada vinte e sete dias e uma fração, cada ciclo dos quais possui um significado para a humanidade em geral e para o indivíduo em particular. Temos o ciclo metônico de dezenove anos no qual a lua repete suas fases no mesmo dia do ano; há outros ciclos da lua de maior extensão e de significação variável. Diz Virgílio:—
“O soberano dos céus colocou no alto
A lua para assinalar as mudanças do céu.”
Temos ciclos simples ou anuais da terra, produzindo as quatro estações, e mudanças de outra significação, conforme indicado em “Solar Biology.” Temos também grandes ciclos, cuja extensão é demasiado vasta para ser no presente plenamente compreendida ou utilizada, sendo causados pelas revoluções de nosso sistema solar em torno de seu centro, que se supõe ser o grande sol Alcíone, o qual é apontado como um dos mistérios astronômicos da grande pirâmide. Temos ciclos de cometas e eclipses, ciclos de chuvas meteóricas e estrelas cadentes, e frequente referência tem sido feita nos últimos anos a ciclos de prosperidade comercial, de pânicos e depressão comercial, sendo esta última em certa medida coincidente com os ciclos de Júpiter.
A revolução de cada planeta possui sua significação. As de Mercúrio e Vênus requerem menos de um ano terrestre; Marte, 687 dias; Júpiter, 11 anos e 315 dias; Saturno, 29½ anos; Urano, 84 anos.
O homem é uma folha ou flor da lei universal tal como ela encontra expressão através de nosso éter ou fluido solar, concretizado em forma material, e esses ciclos dos planetas têm uma importante relação com sua vida e seus assuntos. Muitos consideram superstição atribuir qualquer influência ou significado à posição e aos movimentos dos corpos celestes; mas então, novamente não é comum, nesta era materialista, designar até mesmo a religião e todas as coisas interiores e sagradas como superstição? Há um grau de materialismo que fecha a natureza do homem à força invisível e superior do universo, e assim em mais de um sentido percebemos o significado de Cristo ter colocado uma criancinha no meio do povo, como um emblema do reino dos céus.
Mas, de acordo com a lei dos ciclos a luz de um novo dia avança rapidamente, de modo que aquele que “corre,” possa não apenas “ler,” mas perceber sua relação com os céus estrelados em sua vastidão de maravilhas e harmonia, e tornar-se sua expressão e seu expoente luminosos.
Que as modas, a filosofia, as fases religiosas do pensamento, a crença, em suma que a história se repete ouvimos frequentemente proclamar. Com base numa lei desta espécie os filósofos do Oriente sustentam uma ordem cíclica de reencarnação, pela qual eras e povos reaparecem na vida terrestre, para uma nova carreira de experiência, aproximadamente uma vez a cada 2.000 anos. Há muito nas filosofias e na vida de hoje que corresponde àquilo de um ciclo de 2.152 anos atrás, mas o problema da reencarnação é demasiado místico e momentoso para ser trazido ao âmbito deste artigo, que já promete estender-se além de nossas intenções preconcebidas.
Urano, o planeta da força oculta e espiritual, entrou recentemente no signo de Áries. Este planeta místico, altamente espiritual e interessante leva 84 anos para completar uma revolução ao redor do sol, e 7 anos para atravessar um único signo do zodíaco. Em 1885 ele entrou em Áries, representando a cabeça e a função cerebral da humanidade, e, consequentemente, iniciou um ciclo que levará 84 anos para completar; e, devido a uma culminação de ciclos e causas, será o ciclo mais importante e marcante deste planeta nos anais de nosso período histórico. Ele tem cerca de 5 anos para permanecer neste signo, quando entrará em Touro com força e efeito acelerados, e podemos esperar que algumas marcantes mudanças religiosas, sociais e industriais resultem daí, pois a posição de Urano em Áries é uma que agita e vivifica as forças ocultas da mente, e assim afeta e influencia a sociedade até seus próprios alicerces. Grande parte da atual inquietação, descontentamento e esforço por melhores condições, deve-se à nova luz e energia cerebral deste espiritualizador dos céus, e este estado de coisas continuará até que condições sociais, industriais e espirituais mais equitativas sejam produzidas, e sua relação específica e profética com os problemas da vida será mais plenamente tratada adiante.
Um ciclo muito importante que possui especial significação neste momento é aquele que abrange um período de 25.824 anos, durante o qual o sistema percorre o circuito do zodíaco astral, todo o firmamento estelar aparentemente realizando uma revolução em torno da terra, e ao fim desse tempo aparecendo novamente em sua posição original. A história exotérica trata de menos de um quarto desta extensão relativamente vasta de tempo; mas temos dados suficientes para determinar sua importância. O fato deste ciclo está astronomicamente estabelecido, e ele possui uma importante relação com os assuntos humanos, especialmente em relação às grandes estações ou períodos astrais de luz e trevas espirituais, com a consequente influência sobre a raça. Esses períodos eram evidentemente conhecidos e aparentemente compreendidos nos tempos antigos, antes que a terra passasse para o hemisfério obscuro da existência. Hesíodo e outros antigos poetas e filósofos dão testemunho do dia ou período áureo que havia existido, e do ciclo sombrio através do qual a terra haveria de passar, e no qual já então havia ingressado. A ciência exotérica pretende tratar isso como mera fantasia poética; mas é um fato astronômico que possui uma relação da maior importância com o presente e o futuro da vida terrestre. É necessário este período de 25.824 anos para que o sistema complete um ciclo inteiro através do zodíaco ou das doze funções do homem astral.
A partir de diversos pontos de vista de pesquisa e observação determina-se que o sol, com seu sistema, entrou em Peixes (os pés ou princípio fundamental do grande homem astral) aproximadamente na era cristã, inaugurando um ciclo indicado no antigo mapa dos céus (ou lendas das estrelas), e ainda mais tarde registrado na Bíblia hebraica.
Os pés da imagem vista por Daniel eram a parte vulnerável, sendo compostos de ferro misturado com barro. “A serpente,” alegava-se, “havia ferido o calcanhar” ou parte mortal da raça humana, e aqui era onde os reparos ou obra de restauração tinham de começar. O mapa dos céus e a história das estrelas haviam, desde um período pré-histórico, declarado que a semente da mulher (a virgem celeste do mapa) deveria ferir a cabeça da serpente. Não tentaremos aqui mostrar quem ou o que era a serpente, ou como ela veio a ter um lugar na história humana; não obstante; seu signo encontra-se no mapa primordial dos céus, e a lição e o problema são uma questão de estações e de anos.
Verificamos que a simbologia da missão de Cristo tinha constante referência ao signo zodiacal de Peixes, que é pictórica e alegoricamente representado por dois peixes. No tempo de seu advento a terra estava em noite e trevas espirituais; uma estrela proclamou sua chegada, e os sábios do Oriente sabiam que o registro da carta celeste estava sendo cumprido. Vemo-lo escolhendo seus discípulos dentre pescadores. Ele lhes indicou onde lançar a rede. Fez deles “pescadores de homens.” Vemo-lo caminhando sobre a água; o peixe lhe obedeceu, e trouxe o dinheiro do tributo. Novamente, ele alimentou a multidão com sete pães e alguns “peixinhos,” e os fragmentos foram maiores que a refeição, significando o bastante e de sobra. Vemo-lo lavando os pés de seus discípulos, e dizendo-lhes em linguagem simbólica, que se “seus pés estão limpos todo o seu corpo está limpo,” e que a menos que tenham seus pés lavados, não podem ter parte ou quinhão na questão. Então novamente, o essencial do discipulado era a humildade, que corresponde aos pés. Ele veio trazer “água viva.” Seus discípulos deveriam ser “lavados e tornados limpos.” Assim, encontramos a dispensação cristã repleta da simbologia de Peixes. Eles devem ser os menores a fim de se tornarem os maiores. A exaltação deveria vir através do serviço e da humildade. Assim, o evangelho encontrou pés e percorreu para cima e para baixo a terra, e preparou o caminho, e agora entramos em um novo signo e sua influência vivificante é sentida e vista por toda parte.
A luz, o conhecimento, a realização científica dos últimos mil e oitocentos anos são apenas os PÉS do novo ciclo. Quão grandioso então será o estado do homem completo! Cristo operou segundo a ordem dos céus de onde desceu; seus apóstolos eram doze, segundo o mapa celeste e os signos do zodíaco.
Estamos agora a dois graus neste novo signo, e “tão certo quanto os céus não falham,” uma nova condição e estado de coisas devem sobrevir à terra. A vinda do “Reino dos Céus” possui uma literalidade, esplendor e vastidão que ultrapassam a compreensão comum. Os alicerces foram lançados, a estrutura está pronta para aparecer, e o signo no qual estamos avançando simboliza a vinda espiritual; uma grande efusão,—o Pégaso voador, ou inteligência de asas velozes; também o princípio da serpente transmutado naquele do cisne.
Estamos agora a dois graus no signo astral de Aquário na escala ascendente, e devemos preparar-nos para manifestações de presença e poder ocultos. A humanidade desceu à matéria. Ela possui raízes profundas na natureza objetiva, e deve agora ascender rápida, segura, poderosamente, à atmosfera da luz, conhecimento e poder astrais, até a conquista de sua coroa celeste.
Mas destas questões, mais a seu devido tempo.
FONTE:
BUTLER, Hiram E. “A New Cycle of Progress” (Um Novo Ciclo de Progresso). The Esoteric: A Magazine of Advanced and Practical Esoteric Thought (The Esoteric: Uma Revista de Pensamento Esotérico Avançado e Prático). Boston, Massachusetts: Esoteric Publishing Company, v. 1, n. 1, June 21–July 22, 1887 (21 de junho–22 de julho de 1887).
Publicação original em domínio público. Tradução autoral.

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